Docilda

Aqui … com doçura, paixão e alegria, vida, sorrisos, sucesso e amor… sabedoria, esperança, caridade e diferenças, saudades, liberdade, dúvidas e certezas, …entre amigos ou família… quem sabe outras crenças …dias de sol ou de chuva… sem frescuras… dividimos…”segredos”.

{061} Um pouco de Mário Quintana 05/04/2009

mario quintana

Mario Quintana já foi rotulado de anjo, feiticeiro, mágico. Mas era somente poeta, um homem reservado, irônico e apaixonado, com um mundo particular de difícil acesso até mesmo para os amigos mais próximos. Vivendo de hotel em hotel na Capital gaúcha, fez de seu quarto um verdadeiro santuário, no qual poucos tinham permissão para entrar. Tanto mistério escondia, no fundo, hábitos singelos, tão comuns quanto comer quindim e beber café preto.

Junto com seus cadernos, blocos e os muitos livros que guardava nas prateleiras, não podiam faltar as duas garrafas térmicas de café. Notívago por excelência, tornou a bebida o combustível ideal para suas longas jornadas. A sobrinha-neta Elena Quintana conta que ele tomava, pelo menos, quatro térmicas por dia. “Quando eu tentava acompanhar, meu estômago enjoava”, admite. Nem quando esteve hospitalizado o poeta esqueceu do querido café. Escrevendo numa prancheta, chegou a pedir uma xícara para Elena, que, carinhosamente, lhe explicou que não poderia atendê-lo. Ele, bem-humorado, respondeu: “Com canudo. Arruma um canudo”.

Sandra Ritzel, que cuidou de Quintana em seus últimos anos, salienta que o café tinha de ser, necessariamente, sem açúcar. “Ele dizia que de doce já bastava a vida”, revela. Esta é uma contradição voluntária do escritor, visto que ele adorava doces. O advogado aposentado Francisco de Souza lembra que os dois costumavam degustar banana split na Rua dos Andradas, no Centro de Porto Alegre. Mas a sobremesa predileta era mesmo o quindim. “Eu sempre presenteava o Mario com quindins nos aniversários. Estou até procurando uma réplica para colocar no quarto dele”, afirma Sérgio Napp, diretor da Casa de Cultura Mario Quintana, referindo-se ao último aposento em que Quintana hospedou-se, no antigo Hotel Majestic, e hoje aberto à visitação.

Sandra, que cozinhava para o poeta, acrescenta outros itens à lista de predileções: pudim de queijo e mousse de chocolate com cereja. Elena vai além: “Ele gostava de chocolate amargo, o qual desmanchava no café. E havia ainda um bombom recheado com licor de cereja que ele pedia no aniversário. Detestava receber flores, porque não dava para comer”, confidencia, rindo.

O costume do café com quindim, diz Elena, remonta à época em que comia no bar do jornal Correio do Povo, onde trabalhava. “Ele se alimentava mal. Às vezes, isso era toda a refeição.” Mario Quintana, no entanto, não apreciava tanto assim o local, como falou à jornalista Eunice Jacques: “Detesto comer em lancheria, naqueles balcões. A gente neles come de perfil”. Estar na redação era outro de seus hábitos sagrados. O jornalista Adail Borges Fortes, em um texto publicado no periódico, afirma que o poeta estava no prédio dia e noite. “Este é o seu ambiente. O jornalismo sempre foi a sua profissão. E quem sabe se não foi a atividade diária da imprensa, o convívio com todos os tipos humanos, o trato permanente dos problemas da vida, o cotidiano, que lhe deram mais força e pureza na sua obra poética? Estou certo que sim.”

A simplicidade encontrada nos versos de Quintana se estende a sua alimentação. Ele não apreciava requintes e preferia pratos fáceis e corriqueiros. Era louco por massas, até mesmo se fossem preparadas na manteiga. Filé com fritas, chuleta, banana à milanesa, arroz à grega, feijoada e canja de galinha faziam parte de seu cardápio.

O tradicional chimarrão é um exemplo do que ele evitava. Salada de batata, igualmente, nem pensar, apenas de tomate. “Ele não era muito de verduras e legumes. Só um pouco de espinafre e batata na canja”, conta Elena. Já com as frutas, o escritor era menos seletivo, mas igualmente havia exigências. A banana precisava ser bem madura; o abacaxi, em compota; a uva, preta; e o pêssego, do tipo branco, grande e que desprende o caroço. De peixe, nada. Somente bacalhau e sardinha em lata. “Ele achava que comer peixe era perigoso, que chegava estragado. Não adiantava explicar que hoje existem frigoríficos”, diz a sobrinha. Ainda assim, a sardinha tem uma história curiosa. Era ingrediente de um prato que o escritor preparava. No hotel, pedia uma porção de arroz. Logo, esmigalhava a sardinha e complementava com molho inglês. Elena faz cara feia para o menu, mas garante que o poeta realmente adorava.

No final da vida, Mario Quintana deixou de respeitar o relógio, jantando apenas no horário da fome. “Minha fome é de sopa, de canja de galinha, uma fome de velho”, ironizava. Novamente, Elena abre parênteses para os importantíssimos detalhes. “Na canja, que ele tomava muito nas noites de inverno, somente podia ir batata, arroz e galinha.”

Durante os passeios noturnos, o poeta sentia um verdadeiro prazer em andar bem devagarzinho para assaltar a geladeira. Comia ali mesmo, de colher. “Comida roubada é mais gostosa”, costumava dizer às enfermeiras, que o encontravam no ato. Sandra comenta que seguido ele pedia omelete com sal e salsinha. O ovo frito tinha de ser crocante nas bordas, com bolinhas na clara; e a gema, molinha. Elena nunca conseguiu acertar esse jeito, que o escritor chamava de “vestido de noiva”.

Homem de opiniões firmes, Maria Quintana não tinha receio de mostrar seus excessos. Às vezes, passava uma semana pedindo a mesma comida. Ou um mês querendo a mesma sobremesa. Era atendido nas suas vontades, mas não tão compreendido. “Ele dizia que o que fazia bem para os cachorros fazia bem para ele. E os cachorros comem sempre o mesmo”, revela Elena.

O poeta

Mario de Miranda Quintana pertence à segunda geração do Modernismo brasileiro. Incorporou na poesia o bom humor, o coloquialismo e a brevidade característicos da vanguarda moderna. Nasceu em 30 de julho de 1906, na cidade de Alegrete (RS). Em 1919, mudou-se para Porto Alegre, para estudar no Colégio Militar. Trabalhou como tradutor e colaborador em periódicos. Seu primeiro livro de poesias, A Rua dos Cataventos, foi publicado em 1940. Seguiram-se Canções 1946, Sapato Florido 1948 e O Batalhão das Letras. Destacam-se ainda em sua obra poética Pé de Pilão, Apontamentos de História Sobrenatural, Quintanares, Baú de Espantos, Preparativos de Viagem e Velório sem Defunto. Em 1981, recebeu o Prêmio Machado de Assis e o Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano. Morreu em 5 de maio de 1994, aos 87 anos, em Porto Alegre.

Por: Andréia Odriozola

Foto: Liane Neves

Publicado na Revista Sabor Gastronomia nº 4

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