Docilda

Aqui … com doçura, paixão e alegria, vida, sorrisos, sucesso e amor… sabedoria, esperança, caridade e diferenças, saudades, liberdade, dúvidas e certezas, …entre amigos ou família… quem sabe outras crenças …dias de sol ou de chuva… sem frescuras… dividimos…”segredos”.

{091} Chove. Há Silêncio 02/01/2011

Filed under: Fernando Pessoa,Inverno — docilda @ 12:57
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São 13:00hs  e o dia está assim lá fora…

Chove. Há Silêncio

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego…

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece…

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente…

Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”

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{073} Fernando Pessoa 06/07/2009

Filed under: Citações,Fernando Pessoa,Poesia — docilda @ 8:02
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viver

NAVEGUE.
Descubra tesouros.
Mas não os retire do fundo do mar.
O lugar deles é lá.

ADMIRE A LUA.
Sonhe com ela.
Mas não queira trazê-la para a Terra.

CURTA O SOL.
Se deixe acariciar por ele.
Mas lembre-se que seu calor é para todos.

SONHE COM AS ESTRELAS.
Apenas sonhe.
Elas só podem brilhar no céu.

NÃO TENTE DETER O VENTO.
Ele precisa correr por toda parte.
Ele tem pressa de chegar.

NÃO APRESSE A CHUVA.
Ela quer cair e molhar muitos rostos.
Não pode molhar só o seu.

AS LÁGRIMAS?
Não as seque.
Elas precisam correr na minha, na sua, em todas as faces.

O SORRISO?
Esse deve se segurar.
Não o deixe ir embora.
Agarre-o!

QUEM VOCÊ AMA?
Guarde dentro de um porta jóias.
Tranque, perca a chave!
Quem você ama é a maior jóia que você possui.
A mais valiosa.

NÃO IMPORTA SE A ESTAÇÃO DO ANO MUDA. SE O SÉCULO VIRA. CONSERVE A VONTADE DE VIVER.
Não se chega à parte alguma sem ela.

ABRA TODAS AS JANELAS QUE ENCONTRAR.
E as portas também.

PERSIGA UM SONHO.
Não deixe ele viver sozinho.
Alimente sua alma com AMOR.
Cure suas feridas com CARINHO.

DESCUBRA-SE TODOS OS DIAS.
Deixe-se levar pelas vontades.
Mas não enlouqueça por elas.

PROCURE.
Sempre procure o fim de uma história.
Seja ela qual for.

DÊ SORRISO PARA QUEM
ESQUECEU-SE COMO SE FAZ ISSO.

Olhe para o lado.
Alguém precisa de você.

ABASTEÇA SEU CORAÇÃO DE FÉ.
Não a perca nunca.
Mergulhe de cabeça nos seus
desejos e satisfaça-os.
Agonize de dor por um amigo.
Só saia dessa agonia se conseguir tirá-lo também.

PROCURE OS SEUS CAMINHOS.
Mas não magoe ninguém nessa procura.
Arrependa-se.
Volte atrás.
Peça perdão!

NÃO SE ACOSTUME COM O QUE NÃO O FAZ FELIZ.
Revolte-se quando julgar necessário.

ALARGUE SEU CORAÇÃO DE ESPERANÇAS.
Mas não deixe que ele se afogue nelas.

Se achar que precisa voltar.
VOLTE!
Se perceber que precisa seguir.
SIGA!
Se estiver tudo errado.
COMECE NOVAMENTE!
Se estiver tudo certo.
CONTINUE.
Se sentir saudades.
MATE-A!
Se perder um amor.
NÃO SE PERCA.
Se achá-lo.
SEGURE-O!

“CIRCUNDA-TE DE ROSAS.
AMA. BEBE. E CALA. O MAIS É NADA.”
FERNANDO PESSOA.

 

{052} Cai chuva. É noite. Uma pequena brisa 07/03/2009

Cai chuva. É noite. Uma pequena brisa,
Substitui o calor.
P’ra ser feliz tanta coisa é precisa.
Este luzir é melhor.

O que é a vida? O espaço é alguém pra mim.
Sonhando sou eu só.
A luzir, em quem não tem fim
E, sem querer, tem dó.

Extensa, leve, inútil passageira,
Ao roçar por mim traz
Uma ilusão de sonho, em cuja esteira
A minha vida jaz.

Barco indelével pelo espaço da alma,
Luz da candeia além
Da eterna ausência da ansiada calma,
Final do inútil bem.

Que, se quer, e, se veio, se desconhece
Que, se for, seria
O tédio de o haver… E a chuva cresce
Na noite agora fria.

Fernando Pessoa

Poesias Inéditas 1915-1935

crianca-chuva

Autor:No Middle Name

rainy day

 

{051} Árvore verde

Árvore verde,
Meu pensamento
Em ti se perde.
Ver é dormir
Neste momento.

Que bom não ser
‘Stando acordado !
Também em mim enverdecer
Em folhas dado !

Tremulamente
Sentir no corpo
Brisa na alma !
Não ser quem sente,
Mas tem a calma.

Eu tinha um sonho
Que me encantava.
Se a manhã vinha,
Como eu a odiava !

Volvia a noite,
E o sonho a mim.
Era o meu lar,
Minha alma afim.

Depois perdi-o.
Lembro ? Quem dera !
Se eu nunca soube
O que ele era.

Fernando Pessoa

Poesias Inéditas 1915-1935

arvore-mulher-3

 

{047} Meu coração tardou. 05/03/2009

Filed under: Citações,Fernando Pessoa,Poesia — docilda @ 0:19
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maos

Meu coração tardou. Meu coração
Talvez se houvesse amor nunca tardasse;
Mas, visto que, se o houve, houve em vão,
Tanto faz que o amor houvesse ou não.
Tardou. Antes, de inútil, acabasse.

Meu coração postiço e contrafeito
Finge-se meu. Se o amor o houvesse tido,
Talvez, num rasgo natural de eleito,
Seu próprio ser do nada houvesse feito,
E a sua própria essência conseguido.

Mas não. Nunca nem eu nem coração
Fomos mais que um vestígio de passagem
Entre um anseio vão e um sonho vão.
Parceiros em prestidigitação,
Caímos ambos pelo alçapão.
Foi esta a nossa vida e a nossa viagem.

Fernando Pessoa

 

{030}Ricardo Reis 07/01/2009

trigo
As rosas Amo dos jardins de Adónis,
Essas volucres amo, Lídia, rosas,
Em que o dia em que nascem,
Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o sol, e acabam
Antes que o Apolo deixe
O seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia,
Inscientes, Lídia, voluntariamente
Que há noite antes e após
O pouco que duramos.

Ricardo Reis, Poesia

 

{029} Fernando Pessoa 19/11/2008

Filed under: Citações,Fernando Pessoa,Poesia — docilda @ 22:18
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globe3

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o rnundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…

O porvir…
Sim, o porvir…