Docilda

Aqui … com doçura, paixão e alegria, vida, sorrisos, sucesso e amor… sabedoria, esperança, caridade e diferenças, saudades, liberdade, dúvidas e certezas, …entre amigos ou família… quem sabe outras crenças …dias de sol ou de chuva… sem frescuras… dividimos…”segredos”.

{116} Pará de… (Baruch Espinosa) 15/03/2016

Filed under: Amor,Felicidade,Solidão — docilda @ 0:10

liberdade

“Pára de ficar rezando e batendo o peito!

O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida.

Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que

Eu fiz para ti.

Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste

e que acreditas ser a minha casa.

Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias.

Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.

Pára de me culpar da tua vida miserável:

Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que

tua sexualidade fosse algo mau.

O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu

amor, teu êxtase, tua alegria.

Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.

Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo.

Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus

amigos, nos olhos de teu filhinho…

Não me encontrarás em nenhum livro!

Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?

Pára de ter tanto medo de mim.

Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo.

Eu sou puro amor.

Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar.

Se Eu te fiz… Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres,

de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio.

Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti?

Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez?

Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos

que não se comportem bem, pelo resto da eternidade?

Que tipo de Deus pode fazer isso?

Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei;

essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só

geram culpa em ti.

Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti.

A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida,

que teu estado de alerta seja teu guia.

Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho,

nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso.

Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas.

Eu te fiz absolutamente livre.

Não há prêmios nem castigos.

Não há pecados nem virtudes.

Ninguém leva um placar.

Ninguém leva um registro.

Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.

Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho.

Vive como se não o houvesse.

Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar,

de amar, de existir.

Assim, se não há nada,

terás aproveitado da oportunidade que te dei.

E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não.

Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste…

Do que mais gostaste? O que aprendeste?

Pára de crer em mim – crer é supor, adivinhar, imaginar.

Eu não quero que acredites em mim.

Quero que me sintas em ti.

Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada,

quando agasalhas tua filhinha,

quando acaricias teu cachorro,

quando tomas banho no mar.

Pára de louvar-me!

Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja?

Me aborrece que me louvem.

Me cansa que agradeçam.

Tu te sentes grato?

Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo.

Te sentes olhado, surpreendido?…

Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.

Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te

ensinaram sobre mim.

A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo,

e que este mundo está cheio de maravilhas.

Para que precisas de mais milagres?

Para que tantas explicações?

Não me procures fora!

Não me acharás.

Procura-me dentro…

aí é que estou,

batendo em ti.

Baruch Espinosa (Filósofo-pensador [1632-1677])

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[010]… Viver 03/02/2011

Filed under: Citações,Felicidade,Solidão — docilda @ 21:36

Viver é mais que respirar,

É sentir o coração batendo no peito…
É saber aproveitar cada minuto
da vida como um milagre
Que não poderá voltar…

É vibrar com uma manhã ensolarada,
Deixar levar-se pelo vento e ir além…
Muito além da imaginação…
É sentir a vida como escultura moldada
Por um artista famoso…
É tornar-se ator da sua própria história
E encenar o que quiser e ser aplaudido de pé !

Desconheço o autor. Se alguém souber por favor avise, para dar-lhe os devidos créditos.

 

{075} “Nem tudo é fácil” 19/07/2009

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É difícil fazer alguém feliz, assim como é fácil fazer triste.
É difícil dizer eu te amo, assim como é fácil não dizer nada
É difícil valorizar um amor, assim como é fácil perdê-lo para sempre.
É difícil agradecer pelo dia de hoje, assim como é fácil viver mais um dia.
É difícil enxergar o que a vida traz de bom, assim como é fácil fechar os olhos e atravessar a rua.
É difícil se convencer de que se é feliz, assim como é fácil achar que sempre falta algo.
É difícil fazer alguém sorrir, assim como é fácil fazer chorar.
É difícil colocar-se no lugar de alguém, assim como é fácil olhar para o próprio umbigo.
Se você errou, peça desculpas…
É difícil pedir perdão? Mas quem disse que é fácil ser perdoado?
Se alguém errou com você, perdoa-o…
É difícil perdoar? Mas quem disse que é fácil se arrepender?
Se você sente algo, diga…
É difícil se abrir? Mas quem disse que é fácil encontrar alguém que queira escutar?
Se alguém reclama de você, ouça…
É difícil ouvir certas coisas? Mas quem disse que é fácil ouvir você?
Se alguém te ama, ame-o…
É difícil entregar-se? Mas quem disse que é fácil ser feliz?
Nem tudo é fácil na vida… Mas, com certeza, nada é impossível
Precisamos acreditar, ter fé e lutar para que não apenas sonhemos.
Mas também tornemos todos esses desejos, realidade!!!

Cecília Meireles (1901-1964)

 

004 […] Mulheres 04/06/2009

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“Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes.
Sou a Miss Imperfeita, muito prazer.
Uma imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional e mulher que também sou:
trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado duas vezes por semana, decido o cardápio das refeições, telefono para minha mãe todas as noites, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e-mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos, participo de eventos e reuniões ligados à minha profissão e ainda faço escova toda semana  – e as unhas!
E, entre uma coisa e outra, leio livros.
Portanto, sou ocupada, mas não uma workaholic.
Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.
Primeiro: a dizer NÃO.
Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO.
Culpa por nada, aliás.
Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero.
Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.
Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe
apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros.
Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.
Você não é Nossa Senhora.
Você é, humildemente, uma mulher.
E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante.
Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável…
É ter tempo.
Tempo para fazer nada.
Tempo para fazer tudo.
Tempo para dançar sozinha na sala.
Tempo para bisbilhotar uma loja de discos.
Tempo para sumir dois dias com seu amor.
Três dias.
Cinco dias!
Tempo para uma massagem.
Tempo para ver a novela.
Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza.
Tempo para fazer um trabalho voluntário.
Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.
Tempo para conhecer outras pessoas.
Voltar a estudar.
Para engravidar.
Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.
Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.
Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.
Existir, a que será que se destina?
Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.
A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada.
Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem.
Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.
Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo!
Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente.
Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir…
Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.
Desacelerar tem um custo.
Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C.
Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente,  está precisando rever seus valores.
E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante”.

Martha Medeiros

 

003 […] Voz suave como um trovão… (Susan Boyle) 23/05/2009

Filed under: Citações,Felicidade,Inspiração — docilda @ 11:45
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Antes de cantar, tanto os jurados quanto o público demonstraram desconfiança por sua aparência desleixada e comportamento inseguro. Em resposta, após a surpreendente apresentação ela foi ovacionada pelo auditório e atordoou os juízes. A audição ocorreu em janeiro de 2009 no Clyde Auditorium de Glasgow, Escócia.

O constraste de sua performance com a primeira impressão dada geraram repercussão global. Artigos sobre ela apareceram em jornais de todo o mundo, enquanto vídeos hospedados na internet com sua apresentação bateram recordes. Um dos anfitriões do programa, Simon Cowell, planeja assinar contrato com a cantora amadora através do selo Sony Music. Além disso, ele também planeja fazer um filme sobre a história dela, sendo este, porém, mais focado no desejo dela de participar do Britain’s Got Talent e, consequentemente, sua vitória no programa. A atriz Demi Moore estaria cotada para viver Susan Boyle.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Susan_Boyle

 

{063} As águas do Mar 02/05/2009

mar-e-surf

Fotos minhas: foi uma experiência revigorante… surf, aprovado.

O mar, a mais ininteligível das existências não humanas.
E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos.
Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos.
Ela e o mar.
Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro:
a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.
Ela olha o mar, é o que pode fazer.
Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto é, pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra.
São seis horas da manhã.
Só um cão livre hesita na praia, um cão negro.
Por que é que um cão é tão livre? Porque ele é um mistério vivo que não se indaga.
A mulher hesita porque vai entrar.
Seu corpo se consola com sua própria exigüidade em relação à vastidão do mar porque é a exigüidade do corpo que o permite manter-se quente e é essa exigüidade que a torna pobre e livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias.
Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio das seis horas.
A mulher não está sabendo, mas está cumprindo uma coragem.
Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver.
Ela está sozinha.
O mar não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização.
Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar.
Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto, prosseguir.
É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem.
Vai entrando.
A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas.
Mas uma alegria fatal – a alegria é uma fatalidade – já a tomou, embora nem lhe ocorra sorrir.
Pelo contrário, está muito séria.
O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares.
E agora ela está alerta, mesmo sem pensar.
A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda – e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que oposição pode ser um pedido.
O caminho lento aumenta sua coragem secreta.
E de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda.
O sal, o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo – espantada de pé, fertilizada.
Agora o frio se transforma em frígido.
Avançando ela abre o mar pelo meio.
Já não precisa da coragem, agora, já é antiga no ritual.
Abaixa a cabeça dentro do brilho do mar, e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos salgados que ardem.
Brinca com a mão na água, pausada, os cabelos ao sol, quase imediatamente já estão endurecendo de sal.
Com a concha das mãos faz o que sempre fez no mar, e com a altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos:
com a concha das mãos cheias de água, bebe em goles grandes, bons.
E era isso que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. Agora ela está toda igual a si mesma.
A garganta alimentada se constringe pelo sal, os olhos avermelham-se pelo sal secado pelo sol, as ondas suaves lhe batem e voltam pois ela é um anteparo compacto.
Mergulha de novo, de novo bebe, mais água, agora sem sofreguidão pois não precisa mais.
Ela é a amante que sabe que terá tudo de novo.
O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, e ela mergulha de novo; está cada vez menos sôfrega e menos aguda.
Agora sabe o que quer.
Quer ficar de pé parada no mar.
Assim fica, pois.
Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate.
A mulher não recebe transmissões.
Não precisa de comunicação.
Depois caminha dentro da água de volta à praia.
Não está caminhando sobre as águas – ah nunca faria isso depois que há milênios já andaram sobre as águas – mas ninguém lhe tira isso: caminhar dentro das águas.
Às vezes o mar lhe opõe resistência puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avança um pouco mais dura e áspera.
E agora pisa na areia.
Sabe que está brilhando de água, e sal e sol.
Mesmo que o esqueça daqui a uns minutos, nunca poderá perder tudo isso.
E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos são de náufrago.
Porque sabe – sabe que fez um perigo.
Um perigo tão antigo quanto o ser humano.

Clarice Lispector

 

{061} Um pouco de Mário Quintana 05/04/2009

mario quintana

Mario Quintana já foi rotulado de anjo, feiticeiro, mágico. Mas era somente poeta, um homem reservado, irônico e apaixonado, com um mundo particular de difícil acesso até mesmo para os amigos mais próximos. Vivendo de hotel em hotel na Capital gaúcha, fez de seu quarto um verdadeiro santuário, no qual poucos tinham permissão para entrar. Tanto mistério escondia, no fundo, hábitos singelos, tão comuns quanto comer quindim e beber café preto.

Junto com seus cadernos, blocos e os muitos livros que guardava nas prateleiras, não podiam faltar as duas garrafas térmicas de café. Notívago por excelência, tornou a bebida o combustível ideal para suas longas jornadas. A sobrinha-neta Elena Quintana conta que ele tomava, pelo menos, quatro térmicas por dia. “Quando eu tentava acompanhar, meu estômago enjoava”, admite. Nem quando esteve hospitalizado o poeta esqueceu do querido café. Escrevendo numa prancheta, chegou a pedir uma xícara para Elena, que, carinhosamente, lhe explicou que não poderia atendê-lo. Ele, bem-humorado, respondeu: “Com canudo. Arruma um canudo”.

Sandra Ritzel, que cuidou de Quintana em seus últimos anos, salienta que o café tinha de ser, necessariamente, sem açúcar. “Ele dizia que de doce já bastava a vida”, revela. Esta é uma contradição voluntária do escritor, visto que ele adorava doces. O advogado aposentado Francisco de Souza lembra que os dois costumavam degustar banana split na Rua dos Andradas, no Centro de Porto Alegre. Mas a sobremesa predileta era mesmo o quindim. “Eu sempre presenteava o Mario com quindins nos aniversários. Estou até procurando uma réplica para colocar no quarto dele”, afirma Sérgio Napp, diretor da Casa de Cultura Mario Quintana, referindo-se ao último aposento em que Quintana hospedou-se, no antigo Hotel Majestic, e hoje aberto à visitação.

Sandra, que cozinhava para o poeta, acrescenta outros itens à lista de predileções: pudim de queijo e mousse de chocolate com cereja. Elena vai além: “Ele gostava de chocolate amargo, o qual desmanchava no café. E havia ainda um bombom recheado com licor de cereja que ele pedia no aniversário. Detestava receber flores, porque não dava para comer”, confidencia, rindo.

O costume do café com quindim, diz Elena, remonta à época em que comia no bar do jornal Correio do Povo, onde trabalhava. “Ele se alimentava mal. Às vezes, isso era toda a refeição.” Mario Quintana, no entanto, não apreciava tanto assim o local, como falou à jornalista Eunice Jacques: “Detesto comer em lancheria, naqueles balcões. A gente neles come de perfil”. Estar na redação era outro de seus hábitos sagrados. O jornalista Adail Borges Fortes, em um texto publicado no periódico, afirma que o poeta estava no prédio dia e noite. “Este é o seu ambiente. O jornalismo sempre foi a sua profissão. E quem sabe se não foi a atividade diária da imprensa, o convívio com todos os tipos humanos, o trato permanente dos problemas da vida, o cotidiano, que lhe deram mais força e pureza na sua obra poética? Estou certo que sim.”

A simplicidade encontrada nos versos de Quintana se estende a sua alimentação. Ele não apreciava requintes e preferia pratos fáceis e corriqueiros. Era louco por massas, até mesmo se fossem preparadas na manteiga. Filé com fritas, chuleta, banana à milanesa, arroz à grega, feijoada e canja de galinha faziam parte de seu cardápio.

O tradicional chimarrão é um exemplo do que ele evitava. Salada de batata, igualmente, nem pensar, apenas de tomate. “Ele não era muito de verduras e legumes. Só um pouco de espinafre e batata na canja”, conta Elena. Já com as frutas, o escritor era menos seletivo, mas igualmente havia exigências. A banana precisava ser bem madura; o abacaxi, em compota; a uva, preta; e o pêssego, do tipo branco, grande e que desprende o caroço. De peixe, nada. Somente bacalhau e sardinha em lata. “Ele achava que comer peixe era perigoso, que chegava estragado. Não adiantava explicar que hoje existem frigoríficos”, diz a sobrinha. Ainda assim, a sardinha tem uma história curiosa. Era ingrediente de um prato que o escritor preparava. No hotel, pedia uma porção de arroz. Logo, esmigalhava a sardinha e complementava com molho inglês. Elena faz cara feia para o menu, mas garante que o poeta realmente adorava.

No final da vida, Mario Quintana deixou de respeitar o relógio, jantando apenas no horário da fome. “Minha fome é de sopa, de canja de galinha, uma fome de velho”, ironizava. Novamente, Elena abre parênteses para os importantíssimos detalhes. “Na canja, que ele tomava muito nas noites de inverno, somente podia ir batata, arroz e galinha.”

Durante os passeios noturnos, o poeta sentia um verdadeiro prazer em andar bem devagarzinho para assaltar a geladeira. Comia ali mesmo, de colher. “Comida roubada é mais gostosa”, costumava dizer às enfermeiras, que o encontravam no ato. Sandra comenta que seguido ele pedia omelete com sal e salsinha. O ovo frito tinha de ser crocante nas bordas, com bolinhas na clara; e a gema, molinha. Elena nunca conseguiu acertar esse jeito, que o escritor chamava de “vestido de noiva”.

Homem de opiniões firmes, Maria Quintana não tinha receio de mostrar seus excessos. Às vezes, passava uma semana pedindo a mesma comida. Ou um mês querendo a mesma sobremesa. Era atendido nas suas vontades, mas não tão compreendido. “Ele dizia que o que fazia bem para os cachorros fazia bem para ele. E os cachorros comem sempre o mesmo”, revela Elena.

O poeta

Mario de Miranda Quintana pertence à segunda geração do Modernismo brasileiro. Incorporou na poesia o bom humor, o coloquialismo e a brevidade característicos da vanguarda moderna. Nasceu em 30 de julho de 1906, na cidade de Alegrete (RS). Em 1919, mudou-se para Porto Alegre, para estudar no Colégio Militar. Trabalhou como tradutor e colaborador em periódicos. Seu primeiro livro de poesias, A Rua dos Cataventos, foi publicado em 1940. Seguiram-se Canções 1946, Sapato Florido 1948 e O Batalhão das Letras. Destacam-se ainda em sua obra poética Pé de Pilão, Apontamentos de História Sobrenatural, Quintanares, Baú de Espantos, Preparativos de Viagem e Velório sem Defunto. Em 1981, recebeu o Prêmio Machado de Assis e o Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano. Morreu em 5 de maio de 1994, aos 87 anos, em Porto Alegre.

Por: Andréia Odriozola

Foto: Liane Neves

Publicado na Revista Sabor Gastronomia nº 4