Docilda

Aqui … com doçura, paixão e alegria, vida, sorrisos, sucesso e amor… sabedoria, esperança, caridade e diferenças, saudades, liberdade, dúvidas e certezas, …entre amigos ou família… quem sabe outras crenças …dias de sol ou de chuva… sem frescuras… dividimos…”segredos”.

Enxertos do livro: À flor da pele… 16/05/2008

Filed under: Dia-a-dia,Livros — docilda @ 11:33
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No verão, os seus corpos são contagiados pelo cio. O cio agarra-se aos poros das suas peles nuas; a luz lasciva penetra o seu interior; imagino-o a encrespar-se dentro delas, excitando-as. Despem a roupa, todas as peças pesadas que usam no inverno, deixando que o sol lhes toque: nos braços, na parte de trás do pescoço. Este incide intensamente entre os seus seios, e elas atiram a cabeça para trás para o apanharem no rosto. Fecham os olhos, abrem a boca; lábios pintados ou por pintar. O calor pulsa no chão que pisam com as pernas nuas e saias leves esvoaçando ao ritmo das passadas. Mulheres. No verão observo-as, cheiro-as e lembro-me.

Olham para seus reflexos nas montras das lojas, encolhendo a barriga, endireitando-se, e eu olho para elas. Observo-as as observarem-se. Vejo-as quando pensam que são invisíveis.

O calor pode tornar as mulheres repugnantes. Algumas delas ficam todas ressequidas, como os insectos no deserto. Rugas secas nos seus rostos, ligadas ao lábio superior, cruzando-se por baixo dos olhos. O sol absorveu toda a transpiração delas. Especialmente as mulheres de mais idade, que tentam esconder os braços flácidos por baixo das mangas compridas, os rostos por baixo dos chapéus. Outras mulheres ficam repugnantes, ordinárias; a pele delas mal tem espaço para tanta desintegração. Quando se aproximam, consigo cheirá-las: por baixo do desodorizante e do sabonete e do perfume, que elas colocaram nos pulsos e por trás das orelhas, consigo sentir o cheiro a velhice e a decadência.

Mas algumas delas desabrocham como flores à luz do Sol; com a pele limpa e fresca e macia; cabelo sedoso, puxado para trás ou caído junto ao rosto. Sento-me num banco no parque e observo-as quando passam, sós ou em grupo, pisando a relva esbranquiçada com os pés quentes. A luz incide sobre elas. A negra com um vestido amarelo, com o sol a penetrar na sua pele lisa e brilhante; cabelo oleoso e forte. Ouço as suas gargalhadas quando ela passa, um som pedregoso que parece vir de um lugar secreto bem no fundo de seu corpo forte. Olho para o que fica na sombra: a dobra na axila, a cova por trás do joelho, a zona escura entre os seios. As partes escondidas delas. Elas pensam que não está ninguém a olhar.

Por vezes consigo ver o que elas usam por baixo. A mulher com uma camisa branca sem mangas e a alça do soutien que não pára de escorregar pelo ombro dela. Está acinzentada, gasta pelo uso. Ela vestiu uma camisa limpa, mas não se importou com o soutien. Pensava que ninguém ia reparar. Eu reparo nestas coisas, Uma peça de roupa escondida. O verniz da unha lascado. A mancha que elas tentam disfarçar com a maquilhagem. O botão que não combina. As nódoas de sujidade, a costura do colarinho encardida. O anel que ficou demasiado apertado com o decorrer dos anos e o dedo inchado à volta dele.

Elas passam por mim. Vejo-as através de uma janela, quando pensam que estão sós. Aquela que está a dormir, à tarde, na sua cozinha, na casa que fica na rua calma por onde passo às vezes. A cabeça dela cai e fica numa posição desajeitada – em breve vai abaná-la para se manter acordada, perguntar onde se encontra – e a boca está frouxa e aberta. Ela tem um fio de saliva na face, como o trilho de um caracol.

Ao entrar num carro, o vestido subiu, num flash de roupa interior. Coxas curvilíneas.

A dentada do amor por baixo do lenço cuidadosamente colocado.

Grávida, e consigo ver o umbigo através do tecido fino do vestido.

Com um bebé, a camisa com manchas de leite, uma pequena nódoa de bolçado no sítio em que o bebé pousa a cabeça no ombro dela.

Os vestígios de castanho nos cabelos loiros, onde a tinta está a sair.

No parque, elas estão estendidas na relva enquanto o sol incide sobre elas. Sentam-se nas esplanadas dos pubs, com a espuma da cerveja nos lábios. Por vezes fico entre elas na penumbra; a compressão de carne quente no ar seco. Por vezes sento-me ao lado delas, com a minha anca a tocar ao de leve nas delas. Por vezes abro-lhes a porta e sigo-as até ao interior fresco de uma biblioteca, de uma galeria, de uma loja, observando o modo como andam, o modo como viram a cabeça ou puxam o cabelo para trás das orelhas. O modo como sorriem e desviam o olhar. Por vezes não desviam o olhar…

* Tem o cabelo solto caído sobre os ombros. Precisa de ser lavado. A risca está escura, um pouco oleosa. Envelheceu na semana passada. Tem rugas desde o nariz até aos cantos da boca, olheiras escuras por baixo dos olhos, uma ruga desvanecida entre as sobrancelhas como que tivesse estado a franzir o sobrolho durante horas sem fim. A pele parece ligeiramente mal tratada, pálida e um pouco suja por baixo do bronzeado. Hoje não tem brincos. Está com umas calças de algodão velhas, cor de aveia, acho que é assim que se diz e uma camisa branca de manga curta. As calças estão-lhe largas e precisam de ser apertadas. Falta um botão na camisa. Ela chupa um dos lados do dedo médio da mão direita sem se aperceber. Está sempre a olhar em volta, mas os seus olhos não fixam ninguém mais do que um segundo. Por vezes pestaneja, como se tivesse dificuldade em focar. Está sempre a fumar, acendendo um cigarro no anterior.

A emoção que sinto está a crescer. Quando estiver pronto, saberei. Saberei quando ela estiver pronta. É como o amor, sabe-se apenas. Não há nada mais certo. A certeza apodera-se em mim, torna-me forte e obstinado. Está a ficar cada vez mais fraca e mais débil. Olho para ela e penso para mim próprio: tudo por minha causa.

Está morta. Tal como eu queria. Claro. E sinto o engano. Claro. O melhor é esquecer. Passemos a outra pessoa. A outra mulher.

* Usa demasiada maquilhagem. É como uma máscara que amacia a sua pele. Tudo no seu rosto é brilhante e cuidado – lábios brilhantes, pestanas escuras, pele cremosa, cabelo arranjado e luzidio. Ela é uma imagem que está constantemente a ser retocada e iluminada. Uma imagem apresentada ao mundo. Não pode esconder-se de mim. Imagino seu rosto limpo. Deve ter rugas à volta dos olhos, das narinas, da boca; os lábios devem ser pálidos, macios, com nervuras.

Ao descer uma rua olha constantemente para o seu reflexo nas montras das lojas para verificar se está tudo no lugar. E está sempre. As suas roupas estão bem engomadas, o cabelo encaixa bem com um chapéu. As unhas estão arranjadas e pintadas de cor-de-rosa-pálido; as unhas dos pés também são cor-de-rosa, nas suas sandálias caras. As pernas acetinadas. Tem as costas direitas, os ombros para trás e o queixo para cima. É bem proporcionada, elegante, cheia de energia e de objectividade.

No entanto, tenho-a observado. Vejo para além do seu sorriso que não é um sorriso real, e as suas gargalhadas, se as ouvirmos com atenção, muita atenção, são forçadas e frágeis. Ela é como uma corda de violino que foi apertada até ao ponto mais fino, mais agudo. Não é feliz. Se fosse feliz, doida de medo, ou de desejo, ficaria linda. Libertar-se-ia da sua concha e transforma-se-ia nela própria. Não percebe que não é feliz. Só eu percebo. Só eu consigo vê-la por dentro e libertá-la. Está à minha espera, fechada dentro de si própria, ainda não tocada pelo mundo.

O destino sorri-me. Apercebo-me disso agora. Inicialmente não percebi que me tornara invisível. Ninguém consegue ver-me. Posso continuar sem parar.

 * Está com umas calças creme e uma t-shirt vermelha-acastanhada. Tem a mão ligada e, de vez em quando, agarra-a cuidadosamente com a que está boa, como se fosse um pássaro ferido. Tem o cabelo puxado para trás das orelhas, o que faz com que o seu rosto pareça mais magro, as bochechas mais macilentas. Já parece mais velha. Sou eu quem lhe está a pôr anos em cima.

Hoje não pôs brincos. Nem perfume. Bâton vermelho-vivo que faz com que o seu rosto pareça pálido. Tem uma camada espessa de base e consigo ver manchas de base na face, na testa. Caminha como se estivesse num sonho, arrastando os pés pelo chão. Tem os ombros descaídos. De vez em quando franze a testa, como se estivesse a tentar lembrar-se de alguma coisa. Põe a mão junto ao coração. Quer sentir a vida a bater na palma da mão. Faz o mesmo com a outra.

Era tão contida e agora está a começar a ficar desfeita. Aos poucos, a concha está a quebrar-se ao abrir. Consigo vê-la. Partes dela que nunca quis mostrar a ninguém. O medo faz com que as pessoas se abram. Por vezes apetece-me rir. Correu tudo tão bem. Isto pode ser toda a minha vida. É disto que tenho estado à espera.

* Encontrei-a. A minha terceira mulher perfeita. É baixa, como as outras, mas forte, cheia de energia. Resplandece de energia. A pele parece mel, o cabelo castanho brilhante, mas todo amaranhado, olhos castanhos-esverdeados, cor de nogueira, sardas cor de cobre no nariz e na cara. Cores de outono para o final do verão. Queixo firme. Dentes brancos. Sorri com facilidade, atira a cabeça um pouco para trás quando ri, gesticula quando fala. Está não é envergonhada, mas segura de si própria. Como um gato junto à lareira. A sua pele parece quente. A mão estava quente e seca quando apertou a minha. Assim que a vi, percebi que era a mulher ideal para mim. O meu desafio. A minha querida.

* Estou lá, mesmo no centro de tudo. Invisível. Fico à sua frente e ela sorri-me do seu modo muito próprio, franzindo os olhos. Ri-se das minhas piadas. Põe a mão no meu ombro. Deu-me um beijo na cara: um beijo doce, seco, que me queimou a pele. Deixa que seus olhos se encham de lágrimas e não as limpa. Já não confia em muitas pessoas, mas confia em mim. Sim, confia totalmente em mim. Enquanto estou com ela não posso rir-me. As gargalhadas avolumam-se dentro de mim, como uma bomba.

É forte, resistente; verga mas não quebra. Não desmoronou. Mas eu sou forte. Sou mais forte do que ela, mais forte do que qualquer pessoa. Sou mais esperto, mais espero do que aqueles parvos que farejam à procura de pistas que não existem. E sou paciente. Consigo esperar o tempo que for preciso. Observo e espero e, dentro de mim, rio-me.

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One Response to “Enxertos do livro: À flor da pele…”

  1. Cátia Jaine Says:

    Muito legal ~


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