“[...] docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno.
Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder.
A noção ou sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento da minha personalidade.”
Cecília Meireles

“[...] docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno.
Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder.
A noção ou sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento da minha personalidade.”
Cecília Meireles


“Entre mim e mim, há vastidões bastantes para a navegação dos meus desejos afligidos.”
Cecília Meireles
A arte de ser feliz
Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas. Avistocrinças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refelectidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
Cecília Meireles

Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas,
e foram sempre positivas para mim: Silêncio e Solidão. Essa foi sempre a área de minha vida.
Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos,
onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar.
Mais tarde, foi nessa área que os livros se abriram e deixaram sair suas realidades
e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa
estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano.
Cecília Meireles

A flor com que a menina sonha
está no sonho?
ou na fronha?
Sonho
risonho:
o vento sozinho
no seu carrinho.
De que tamanho
seria o rebanho?
A vizinha
apanha
a sombrinha
de teia de aranha…
Na lua há um ninho
de passarinho.
A lua com que a menina sonha
é o linho do sonho
ou a lua da fronha?
Cecília Meireles
Minhas palavras são a metade de um diálogo
obscuro continuando através de séculos impossíveis.
Agora compreendo o sentido e a ressonância
que também trazes de tão longe em tua voz.
Nossas perguntas e respostas se reconhecem.
Como os olhos dentro dos espelhos.
Olhos que choraram.
Conversamos dos dois extremos da noite,
como de praias opostas.
Mas com uma voz que não se importa…
E um mar de estrelas se balança entre o meu pensamento e o teu.
Mas um mar sem viagens.
Cecília Meireles
